Custo variável é o valor que só existe porque houve venda: o insumo que entrou no prato, a embalagem do delivery, a comissão do aplicativo. Se as vendas caem a zero, esse custo cai a zero junto. É essa dependência do volume que separa custo variável de custo fixo, e é essa mesma dependência que faz o CMV disparar sem aviso quando ninguém está medindo. A confusão mais comum não é falta de disciplina do dono, é falta de uma régua clara para classificar cada gasto e de uma rotina para olhar o número toda semana. O cálculo do CMV do zero resolve a parte da fórmula; este texto resolve a parte que vem antes, saber exatamente o que entra na conta de custo variável e o que não entra.
Custo fixo e custo variável: onde cada gasto do restaurante se encaixa
O e-book de custos do Sebrae resolve a régua em uma frase para cada lado. Custo fixo são “aqueles que não sofrem alteração de valor em caso de aumento ou diminuição da produção e/ou vendas”, e o material cita aluguel do imóvel, honorários do contador e salários. Custo variável são “as contas que variam proporcionalmente de acordo com o nível de produção e/ou vendas”, e a lista de exemplos é exatamente a rotina de um restaurante: CMV, impostos sobre vendas, comissões sobre vendas e fretes (Sebrae, e-book Custos Fixos e Variáveis: como classificá-los e como interpretá-los). O mesmo material avisa que a classificação não se copia de uma casa para outra: “uma classificação de fixos e variáveis de uma empresa não será igual a qualquer outra empresa, mesmo em se tratando de empresas com a mesma atividade mercantil”.
Na cozinha, essa definição rende uma subdivisão que a fórmula do CMV obriga a fazer. Dentro dos custos variáveis, um grupo compõe o valor da mercadoria vendida (o insumo, a embalagem, a bebida de revenda) e outro incide sobre o preço depois que o pedido fecha (imposto sobre a venda, comissão de garçom, taxa do aplicativo). Só o primeiro grupo entra no CMV. O segundo consome a mesma receita e não aparece em nenhuma linha do cálculo. São três gavetas que costumam ser jogadas juntas na mesma planilha:
| Categoria | O que é | Exemplos no restaurante | Como se comporta |
|---|---|---|---|
| Custo variável de mercadoria (entra no CMV) | Valor pago para adquirir o que será usado ou revendido | Ingredientes, embalagens de delivery, bebidas para revenda | Sobe e desce junto com o volume vendido |
| Custo variável sobre a venda (fora do CMV) | Percentual cobrado no momento em que a venda acontece | Imposto sobre a venda, comissão de aplicativo de delivery, comissão de garçom | Só existe se houver venda; some quando não há |
| Custo fixo | Valor pago independentemente do volume vendido | Aluguel, salário da equipe administrativa, seguro, IPTU | Permanece igual com a casa cheia ou vazia |
O erro que mais custa caro é jogar comissão de aplicativo e imposto sobre a venda dentro do custo de insumo. Fora do CMV, esses percentuais somem do indicador que o dono acompanha toda semana e só reaparecem quando a margem bruta do mês já foi apurada e o resultado não bateu. Uma casa com parcela relevante do faturamento vindo de delivery pode ter CMV de insumo dentro da faixa de referência e ainda assim fechar no vermelho, porque a comissão do aplicativo incide sobre o preço cheio do pedido, não sobre o que sobrou depois do custo direto. O percentual varia por plano contratado e por quem faz a entrega, então o número a usar na conta é o do seu próprio contrato, não uma média de mercado.
A fórmula do CMV e a faixa que diz se a casa está saudável
A fórmula não muda: CMV = Estoque Inicial + Compras – Estoque Final. O resultado em reais mostra quanto foi gasto com insumos no período. Para virar percentual, divide-se o CMV pelo faturamento do mesmo período e multiplica-se por 100 (Sebrae PR, Entendendo o CMV de restaurante). A mesma fonte aponta “aproximadamente 25% a 35%” como boa estimativa para o custo dos alimentos dividido pelas vendas, faixa em que a margem de lucro costuma se sustentar.
Essa faixa não é um número absoluto para qualquer cardápio, ela varia com o mix de pratos e com o canal de venda, mas serve como termômetro rápido:
| Faixa de CMV% | O que costuma indicar | Ação recomendada |
|---|---|---|
| Abaixo de 25% | Ficha técnica pode estar subestimando insumo, ou preço acima do mercado | Revisar ficha técnica e comparar com o preço praticado pela concorrência |
| Entre 25% e 35% | Faixa de referência do Sebrae para operação de alimentos | Manter apuração semanal e comparar com o mês anterior |
| Acima de 35% | Desperdício, porção fora do padrão ou compra mal negociada | Auditar fichas técnicas e registro de perdas antes de mexer no preço de venda |
Um detalhe que passa despercebido: aumentar o percentual de marcação sobre o custo (o famoso “jogar 50% em cima”) não garante a mesma margem de lucro, porque imposto e comissão incidem sobre o preço de venda, não sobre o custo. Uma casa que aplica 50% sobre o custo mas paga, digamos, 7,5% de imposto e 3% de comissão sobre a venda tem margem de contribuição real bem menor do que os 50% sugerem à primeira vista, exatamente porque esses percentuais comem parte do que parecia sobra.
Passo a passo para apurar e comparar o CMV toda semana
A apuração vira rotina quando segue sempre a mesma sequência:
- Definir o período de apuração (semanal é o intervalo que permite agir a tempo, mensal só confirma o que já aconteceu).
- Fazer contagem física do estoque inicial.
- Somar todas as compras do período pelo custo real pago, incluindo frete quando houver.
- Fazer o inventário final e aplicar a fórmula do CMV.
- Calcular o CMV% dividindo pelo faturamento do mesmo período.
- Comparar com a faixa de referência e com o período anterior.
- Investigar a causa da variação: desperdício, porção acima da ficha técnica ou compra com preço fora do padrão.
Essa rotina só funciona se a margem por prato estiver calculada com ficha técnica atualizada, porque é ela que diz qual porção deveria sair de cada compra. Sem ficha técnica correta, o CMV geral esconde qual prato específico está sangrando a margem. O mesmo vale para a apuração mensal do CMV: ela serve para confirmar tendência, não para corrigir o mês corrente, que já passou.

Onde a margem escapa sem aviso: os pontos que inflam o CMV
Cinco causas concentram a maior parte da variação de CMV que os donos não conseguem explicar:
- Ficha técnica desatualizada. Quando a receita muda mas a ficha não acompanha, o rendimento real do prato fica incerto e o custo lançado no sistema não bate com o custo pago.
- Perdas não registradas. Produto vencido, quebra e sobra de produção que não entram em nenhum registro distorcem o CMV porque o estoque final contado não reflete o que realmente saiu.
- Compra por impulso ou em excesso. Promoção de fornecedor sem plano de consumo prende capital em itens que não giram e aumenta o risco de vencimento.
- Falta de padronização entre turnos. Cada cozinheiro montando o prato do seu jeito gera variação de custo por porção que só aparece quando o CMV já subiu.
- Custo de mão de obra tratado junto do CMV. Misturar o custo de mão de obra na mesma conta do custo de insumo dificulta saber qual das duas frentes precisa de ajuste.
Cada ponto percentual a mais de CMV é um ponto a menos de margem de contribuição, porque as duas contas são espelho uma da outra sobre o mesmo faturamento. Não é falta de esforço do gestor, é ausência de um processo que registre a mesma informação da mesma forma todo dia.
Da planilha esquecida à rotina que a equipe segue sozinha
O controle de custos variáveis muda de categoria quando deixa de depender da memória do dono e passa a rodar como checklist: contagem de estoque no mesmo horário, ficha técnica acessível na cozinha, registro de perda no momento em que ela acontece, não no fim do mês. É esse tipo de sistematização que sistemas de gestão financeira básica de restaurante tentam resolver, e é o papel que o Koncluí cumpre quando transforma fichas técnicas, contagens e registros de perda em passos padronizados para a equipe seguir, com o alerta chegando antes do prejuízo, não depois.
Para quem já sabe o CMV atual e quer simular o impacto de mudar preço, porção ou fornecedor antes de decidir, a calculadora de CMV do Koncluí faz essa conta em minutos, com os mesmos números que este artigo usou.
Dúvidas que aparecem depois da primeira apuração semanal
A casa compra quase tudo no dia. Ainda preciso de inventário semanal?
Sim, se houver qualquer estoque que sobre de um dia para o outro: câmara fria, despensa seca, bebidas e embalagem. O inventário não serve só para quem estoca a semana inteira, ele fecha o ciclo da fórmula e pega o que entrou e não saiu na venda. Sem contagem física, o CMV vira um chute com base em notas fiscais, e a quebra ou o uso livre de insumo some da conta. Em casas com compra diária, o inventário pode ser mais curto, focado nos itens de maior giro e de maior valor, mas precisa existir no mesmo dia e horário toda semana.
A equipe esqueceu de registrar a quebra. Como recupero o número sem inventar dado?
Não complete a planilha com estimativa. Faça a contagem física na próxima abertura e trate a diferença entre o estoque esperado e o contado como perda do período, com data e item. O registro atrasado é pior do que a perda em si, porque mistura o que foi desperdício real com o que foi porção fora do padrão ou venda sem baixa. Na mesma semana, defina quem assina a quebra no turno em que ela acontece e deixe o checklist no posto de trabalho, não no escritório. Na apuração seguinte, o CMV já volta a refletir o que a cozinha de fato consumiu.
Tenho duas unidades. Apuro o CMV junto ou separado?
Separe por unidade, mesmo que o CNPJ seja o mesmo. Cardápio, mix de canais, fornecedor e desperdício raramente se comportam igual em dois endereços, e o número consolidado esconde a casa que está sangrando. Se cada unidade tiver CNPJ próprio, a separação é obrigatória também para o contador e para o imposto sobre a venda. Use o consolidado só depois, como visão de grupo, nunca como único indicador de decisão. Ação de correção (ficha técnica, compra ou porção) só funciona quando você sabe em qual cozinha o desvio nasceu.
Quem deve ser dono da contagem se eu não posso estar na casa toda semana?
Escolha uma pessoa com acesso à despensa e à câmara, e fixe nome, horário e formulário. Dono ou gerente define a régua e revisa o número, mas a contagem física precisa de responsável presente, senão a rotina cai no primeiro feriado ou no primeiro plantão corrido. Treine o substituto do mesmo turno e deixe o padrão escrito: o que conta, o que não conta e como arredondar. Sem dono nomeado, a apuração semanal vira tarefa de quem sobrar, e o CMV volta a ser surpresa no fechamento do mês.
Vale a pena apurar CMV por canal (salão e delivery) ou o geral basta no começo?
No começo, o CMV geral semanal já muda a gestão. Quando o delivery passar a ser fatia relevante do faturamento, separe pelo menos o custo de embalagem e o desperdício típico de montagem de pedido, porque o prato no salão e o mesmo prato na caixa não consomem o mesmo. Não misture comissão de aplicativo nessa conta: ela continua fora do CMV, na gaveta de custo sobre a venda. A separação por canal vira útil quando o geral está estável e ainda assim a margem do mês não fecha, porque aí o problema costuma estar no mix de canais, não só no insumo.
Quando o CMV semanal vira decisão de cozinha
Quem classifica certo o custo variável, apura o CMV toda semana e trata perda e ficha técnica no dia a dia deixa de descobrir o rombo só no balancete. A operação ganha um número comparável, uma causa investigável e uma pessoa responsável por cada desvio. Se quiser testar o impacto de preço, porção ou fornecedor com os números da sua casa, use a calculadora de CMV do Koncluí antes de mudar o cardápio ou a compra.